o néon da esperança

Um miserável prospetor de ouro, sem ter que comer, cozinha o seu sapato. Sentado à mesa, mastiga a sola como um pedaço de bife e chupa um atacador como um fio de esparguete. E nós rimo-nos.

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Esta cena de A Quimera do Ouro, tal como o resto dos filmes de Charlie Chaplin, simboliza a capacidade do ser humano em ironizar sobre as suas desgraças. A penúria, a fome, o desespero não têm nada de cómico; mas Chaplin faz-nos rir na pele daquele homem de bigodinho a comer um sapato cozido. Ali percebemos que mesmo nos momentos mais negros, uma gargalhada tem o poder de apaziguar, redimir, salvar. E, ao mesmo tempo que nos rimos do que não tem graça, entra-nos uma melancolia surda e invisível pelo peito adentro. E instala-se lá dentro, de mansinho, a instigar reflexões que estavam estagnadas.

Tal como o cinema, a literatura tem o poder intrínseco de permitir que o ser humano se escape momentaneamente das realidades mais duras e renove energias para as batalhas que tem pela frente. Mas um livro também pode deter uma profundidade e complexidade que nos leva a questionar aquilo que somos e o mundo em que vivemos. Nas páginas de um livro, as fantasias mais quiméricas tornam-se concretizáveis; e, ao mesmo tempo, plantam-se sementes que despertam consciências. Por isso, quando se aborta um espaço de diálogo entre quem escreve um livro e quem o lê, censura-se parte desta capacidade de entreter e de refletir.

Cancelar a Feira do Livro do Porto é espetar mais um prego na indigesta sola do sapato. Portugal é um país onde a palavra ESPERANÇA, à custa de tanto ser apedrejada, está a desvanecer-se como um néon intermitente. Lá do cimo dos seus decreto-isto-e-aquilo, os políticos estão a acabar com todos os espaços onde podemos fantasiar, reclamar, esquecer, agitar, perguntar, pensar. E depois, com cara de pau e discurso politiqueiro, justificam-se. Dizem eles que por causa da crise também temos de prescindir do escape de nos perdermos num livro. Dizem eles que por causa da crise não podemos sorrir durante uma conversa entre escritor e leitor. Dizem eles ao cidadão – seja ele um escritor ou um leitor – que a literatura é um preciosismo, um luxo, uma teimosia. Ou, pior que isso, que a literatura é um apêndice supérfluo que pode ser extirpado sem provocar qualquer mal-estar.

Eles não dizem que querem apagar a luz ao fundo do túnel, embora seja isso que estão a fazer. Eles não dizem que querem espezinhar a cultura, mas é isso que estão a fazer. Mas eu continuo a acreditar que vão falhar no intento, por mais que carreguem no interruptor ou calquem o solo. Cabe-nos a nós falar e ouvir, escrever e ler, ocupar as folhas em branco e dar vida às palavras que eles querem apagar do dicionário. Cabe-nos a nós devolver o sentido e o brilho ao vocábulo ESPERANÇA. Seja nas páginas de um livro ou numa conversa entre um leitor e um escritor.

Paulo M. Morais

[texto escrito para o movimento “Não há feira, mas há escritores”, junho de 2013]

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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