carta a Clarice

Se eu lhe escrevesse, Clarice, trocaria o meu “tu” pelo seu “você”; só assim ganharia intimidade para lhe dizer que ainda não sei nada sobre aquilo que você me escreveu. Os seus livros, em mim, continuam um mistério. Um ensinamento de que quanto mais mergulhamos, mais o abismo se agiganta. Uma revelação de que ao incidirmos um foco de luz sobre nós próprios, apenas estamos a iluminar a nossa escuridão. Não somos o que nós pensamos que somos; não somos o que os outros pensam que nós somos. Somos uma sombra sem um sol para a delinear no chão.

Parágrafo a parágrafo, você ofereceu-me pensamentos que continuam indecifráveis. Página a página, você mostrou-me personagens que são montanhas inacessíveis. Livro a livro, você abriu-me gavetas para portas fechadas, mostrou-me caminhos para lugar nenhum, deu-me pistas para perder-me ainda mais, batizou-me com nomes que me baralharam a identidade.

Guardo comigo a fórmula de que Deus (ou o sentido da vida) pode estar numa barata. Porém, quando vejo uma barata, desvio-me dela. Mantenho o medo de afagar a carapaça duma barata viva e perceber uma nesga do universo. Continuo com medo de tocar na seiva duma barata esmagada e ter um lampejo do ser humano. Acho que você fez de propósito Clarice. Você sabia que eu fujo a sete pés quando deparo com esses insectos nojentos.

É essa incompreensão visceral que me mantém refém dos seus livros. Gosto do aprimorar da indefinição, da renúncia à lógica, da esquiva à ordem, da luta ao determinismo. Na sua galáxia de palavras, encontro respostas com pontos de interrogação. E quanto menos me compreendo, mais sei quem eu sou. Por isso, obrigado Clarice. Obrigado pelo abanão de dúvida. Amanhã vou continuar a ter medo de baratas. Amanhã vou continuar a afastar-me da minha sombra falsa, projetada por mim e pelos outros, para ir de encontro à incógnita do que sou. Amanhã vou continuar a ser também um pouco de Clarice.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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