todos os dias pego numa arma

Antes de avançar para a escrita de romances, fui aluno assíduo na melhor escola da literatura que conheço: a leitura. As Bibliotecas Municipais de Oeiras ajudaram-me nos “estudos literários” ao disponibilizarem largas dezenas dos títulos que constavam da minha lista de leituras obrigatórias. Foi no catálogo das bibliotecas que, por exemplo, encontrei uma preciosa cópia de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Antes disso, passara uma tarde a entrar em cada livraria do Chiado para fazer a mesma pergunta e ouvir a mesma resposta (esgotado, não temos, podemos tentar mandar vir do Brasil mas sem garantias…). E, afinal, Riobaldo e Diadorim estavam pacientemente na estante da biblioteca de Algés, à espera de entrarem na minha vida.

Devido a esta ligação intensa, foi com enorme alegria que aceitei o convite para apresentar o Revolução Paraíso no dia em que a Biblioteca Municipal de Algés comemorou 12 anos no seu novo edifício. Num agradável pedaço de tarde passado no Palácio Ribamar, falou-se do livro, mas também de Portugal, de livrarias e bibliotecas, da Revolução dos Cravos e até de amores. Trocaram-se angústias e esperanças. Fizeram-se confidências como a do leitor que justificou a razão de a sua personagem preferida do romance ser a fogosa e revolucionária Pandora. É que ele  tivera uma Pandora na sua vida; uma mulher capaz de pegar em armas para defender as suas convicções.

Vivemos tempos de arregaçar as mangas e batalhar. Eu procuro seguir o exemplo de Pandora. Todos os dias pego numa arma para alimentar a minha ideologia. Mas os meus disparos são feitos de palavras; palavras que estão impressas nos livros que retiro das estantes das livrarias e das bibliotecas. Cada página que viro acaba por unir o passado (o que já li) e o futuro (o que quero ler). E, em simultâneo, molda o presente, que é feito da luta por todas as palavras que ainda tenho para escrever.

Naquele dia de aniversário voltei a casa mais doce. Por causa de uma fatia de bolo. Por causa de uma oferta (o extraordinário Beloved, de Toni Morrison). E, principalmente, por ter conhecido mais alguns leitores que dedicaram horas da sua vida ao livro que eu escrevi.

Anúncios

Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
Esta entrada foi publicada em oráculo-morais com as etiquetas , , . ligação permanente.

comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s