o fantasma do “gosto”

o-fantasma-do-gostoNo Facebook assiste-se a uma luta assanhada pelos “gosto” nas páginas. Entre a ansiedade de se mostrar o que se faz e o medo de perder o comboio caso não se atinja rapidamente os milhares de fãs, chovem diariamente os pedidos para gostar disto e daquilo. Ao bombardeio incessante riposta-se da mesma forma. Pedimos aos amigos um “gosto”, como antigamente se pedia um favor qualquer. A maior parte deles ignora o pedido (até porque eles também têm páginas à espera do nosso “gosto”…). Alguns clicam no botão, provavelmente contrariados. E, raramente, lá aparece um amigo a gostar convictamente. O contador abstrai-se das motivações e, sem diferenciar, vai subindo os números. Faz-se uma festa ao atingir 100 “gosto”. Depois repete-se a festa aos 200. Entretanto, dado que já não há muitos amigos para convencer a gostar, festeja-se os 250 porque os 300 parecem uma miragem. Talvez promover um sorteio aos 500 ajude…

No meio desta febre, acontece sermos surpreendidos por um “gosto” desconhecido. Alguém que chegou até nós de forma espontânea, após ter lido o nosso livro, ouvido a nossa música, visto o nosso quadro. Alguém a quem apetece agradecer. Imagino o diálogo que se estabeleceria entre nós:

EU: obrigado pelo “gosto” na minha página de autor. votos de boas leituras. um abraço literário

ELE: muito sucesso. um abraço

EU: obrigado. é extraordinário ver jovens interessados na leitura. devolve-nos esperança.

ELE: e é extraordinário podermos ler cada vez mais escritores portugueses com grande talento. penso que seja isso que leva cada vez mais jovens da minha idade a interessarem-se pela leitura. e espero que assim continue.

EU: que belíssimo pensamento. gostava, se me permitisses, de um dia o colocar na minha página. como exemplo. como demonstração do valor das novas gerações.

ELE: Com certeza. Um abraço e espero que seja possível continuar a contribuir para esse grande valor das novas gerações, que acompanho com muito gosto.

Disse que imaginava? Se calhar não inventei este Eu e Ele. Talvez o diálogo exista assim mesmo, bruto, por lapidar, descontinuado. Procuro-o nos meus arquivos virtuais. Quero dizer ao jovem que ele me compreendeu mal, que as novas gerações de que eu falava não eram de escritores, mas sim de jovens que gostam de pegar em livros. Mais do que nunca, a esperança não está em quem escreve; está em quem lê. Quero dizer-lhe que ele é a esperança, mas só me aparece um perfil desactivado, sem fotografia. Um fantasma.

Mesmo com um vazio à minha frente, continuo a acreditar na realidade do jovem leitor. Sim, aquele jovem que lia livros aconteceu-me. E lembro-me de ter comemorado o “gosto” dele como se o contador da minha página tivesse atingido o milhar.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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