memória cega

sala-chinesa

Tudo era velho na enorme casa daquela avó à beira do celebrar um século de vida. A proprietária cegara há vários anos; movimentava-se às apalpadelas às paredes, requisitando à memória as esquinas dos corredores e as ombreiras das portas. Caminhava sozinha, aos passinhos, temerosa de tropeçar nos cães e nos gatos que lhe atafulhavam a passagem, num tapete enrodilhado, num objeto deslocado que a fizesse perder o equilíbrio. Só temia o inesperado; conhecia os recantos da casa como a palma da sua mão. Sabia o sítio exato do mobiliário, dos quadros, do mais ínfimo bibelô. E era a memória de cada particularidade daquela casa que lhe amenizava a dor da cegueira.

Os quartos da casa tinham sido batizados como se fossem pessoas. A sala da costura com a máquina a pedal; o escritório com a secretária de madeira maciça e tampo vidrado; a sala de jantar com o louceiro repleto de chávenas de porcelana e copinhos de cristal; a sala de estar com o piano vertical cujo topo recebia o presépio na época natalícia; os quartos de cama divididos e usados por filhos, netos, primos, amigos e conhecidos que ali calhavam a fazer morada temporária; e depois, a sala chinesa, repositório de recordações longínquas no tempo e na geografia. Embora não tivesse imagens de santos ou cristos, a sala chinesa era o equivalente a um local de culto. Entrar naquela salinha de intocáveis era um acontecimento raro e deslumbrante; mesmo para os que viviam naquela casa, a admissão estava sujeita a um pedido prévio e à respetiva permissão.

Quem entrava na sala chinesa deparava com uma espécie de sagrado impregnado nas estatuetas africanas, no biombo e lanterna asiáticos, nos sofás de estofo vermelho (onde ninguém se sentava), na escrivaninha de gavetas secretas. Os quadros chineses de tigres bordados a seda destacavam-se das paredes forradas a papel às riscas azul e creme. Mas era uma pintura japonesa de mãe e filha junto a um templo que prenunciava o objeto dominante daquele quarto. A sala chinesa podia estar cheia de minúcias de outros mundos, mas a peça central era o retrato de uma mãe. A mãe daquela avó morrera cedo, deixando uma saudade incurável na sua filha. E era naquela sala fechada a olhares de curiosos, naquela sala de sussurros, que a avó cega ainda conseguia contactar com o passado. Apesar de não ver, ela olhava para o retrato da sua mãe precocemente morta, sabedora de que a moldura se mantinha milimetricamente no local de sempre.

Um dia, o corrupio de novos inquilinos na casa acabou por estabilizar. Entraram novos familiares para cuidar daquela avó cega e, passado algum tempo, os novos habitantes quiseram fazer permanente do transitório. Desejosos de alargar domínios e gerar posse, resolveram pedir à avó cega para ocuparem a sala chinesa. Os rituais daquela casa eram-lhes indiferentes; eles só precisavam de uma sala maior, mais confortável. A avó cega, incapaz de negar pedidos de familiares, chorou lágrimas molhadas (e depois secas) enquanto concordava. E após décadas de entradas reverenciais, de contactos entre os vivos e os mortos, entre o presente e o passado, entre o vazio e a memória, esfumou-se o mistério daquele quarto. Os novos inquilinos tiveram a sua nova sala e o retrato da mãe falecida mudou de parede. Penduraram-no no lado oposto da casa e levaram a avó cega, aos passinhos, para conhecer o novo sítio do retrato da sua mãe. Num quarto sem nome específico, ela olhou com os seus olhos cegos para a parede indicada mas apenas viu escuridão. Na sua memória, o retrato estaria sempre na sala chinesa, inamovível, até ao dia da sua morte; mas ela também sabia que, no real, aquele retângulo de parede estava vazio. A avó cega jamais voltaria a entrar no quarto que devotara ao seu passado para falar com a sua mãe. A sala chinesa desaparecera, dando lugar a uma simples sala de estar.

Nesse dia de mudanças, enquanto os novos hóspedes perspetivavam o futuro, a avó cega perdeu o elo com o passado. E, tal como os que tinham visto e sentido aquela sala chinesa cheia de indizíveis e invioláveis, a avó cega continuou a chorar interiormente a sua perda até ao dia em que morreu.

Anúncios

Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
Esta entrada foi publicada em oráculo-morais com as etiquetas , . ligação permanente.

comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s