os anéis de leitores

aneis-de-leitoresQuando o nosso primeiro livro acaba de ser publicado, mergulhamos numa felicidade infantil pelo admirável culminar de um processo intenso e doloroso que durou anos. Mas no momento em que o nosso livro aparece num escaparate, surge uma enorme interrogação: quem serão os nossos leitores?

Se não fizermos parte do panorama mediático que garante vendas e leituras logo à partida, a tendência é olharmos ao nosso redor e, num suspiro de cão a precisar de afagos, procurarmos quem nos leia. Os potenciais leitores assemelham-se então a uma sucessão de anéis (mais próximos ou distantes, mais nítidos ou desfocados), de acordo com a familiaridade e grau de amizade. Mesmo que nos sintamos acanhados em pedir que nos leiam, o desespero de obter umas primeiras palmadinhas nas costas obriga-nos a encarar os anéis imediatos como a nossa salvação. Além da nossa família e amigos não vislumbramos mais ninguém que nos possa ratificar o livro escrito. E é neste olhar suplicante que cometemos o erro de ignorarmos a identidade dos que nos envolvem. Esquece-mo-nos de colocar perguntas relevantes. São leitores assíduos? Costumam comprar livros? Qual o género que preferem? Com que temas simpatizam?

Se analisássemos separadamente os que integram os nossos círculos adjacentes, provavelmente teríamos de descartar a grande maioria das pessoas como eventuais leitores do nosso livro. E para atenuar a mágoa, devíamos pensar que não lhes pedimos opinião sobre o nosso desejo de escrevermos. Devíamos entender que o incentivo deles não representa a assinatura de um contrato de leitura e, muito menos, da obrigação de gostarem do que escrevemos. Devíamos entender que não fizemos um bolo de chocolate que se aprova ou rejeita numa garfada, nem projectámos uma ponte que tem de ser atravessada quando se quer chegar à outra margem.

Não, nós criámos um objecto com centenas de páginas em papel que obriga a uma dedicação de dias, semanas, talvez até meses; criámos um objecto que obriga a uma concentração diferente da que se usa para ver televisão ou navegar pela Internet; criámos um objecto que até pode requerer um domínio avançado da língua para poder ser interpretado. Mas nós, ávidos por sermos lidos, sedentos de ouvir opiniões, só olhamos para a capa bonita que mascara de simplicidade a exigência da leitura. E, num ápice, aquele que escreve e aqueles que rodeiam quem escreve vêem-se envolvidos numa trama de expectativas falsas e de imposições artificiais. Se tivermos sorte, despertaremos para a realidade quando alguém nos disser, munido da maior sinceridade, que não nos vai ler. Não por não gostar de nós; simplesmente porque não costuma ler livros ou romances ou seja lá aquilo que nós escrevemos.

Se digerirmos o choque inicial, então ficaremos com a possibilidade de ver mais longe e de esperar, com serenidade, que surjam os nossos leitores nos anéis mais distantes, habitados por pessoas que nos são estranhas mas que compram livros. E, nesse movimento de distanciamento, acabamos ao mesmo tempo por nos libertarmos – a nós e aos que nos estão colados –, de constrangimentos e mágoas. Se é a eles que queremos agradar, será mais fácil consegui-lo com aquilo que as costuma fazer feliz. Um carinho, uma comida, uma conversa.

Não nos tornamos escritores por escrever um livro; nem são os familiares e os amigos que confirmam um escritor. O papel do círculo mais próximo é outro, nesta como noutras situações da vida. Deixemos a leitura dos nossos livros para os leitores assíduos. Estejam eles no anel que estiverem.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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