a doença do escritor

«Se pensarmos bem, ser escritor é algo de muito estranho. É uma forma completamente doida de viver, que consiste em estar sozinho num quarto o dia todo. Poucas pessoas conseguem aguentá-lo. A maior parte quer ganhar dinheiro, quer segurança, e não há qualquer segurança em ser-se escritor. E também não faz sentido escrever para ser famoso, pois muito poucos alcançam o reconhecimento. Quem escolhe esta vida, fá-lo por paixão. E também porque está de algum modo doente, porque é um ser ferido, danificado. As pessoas normais não precisam disto, o mundo é-lhes suficiente. Estar vivas é-lhes suficiente.»

Paul Auster em entrevista ao “Expresso”

 

paul-auster

Estive perto de quarenta anos a salvo da doença referida por Paul Auster. Agora, sinto-me infetado. Julgo não se tratar de um adoecer artificial mas, para evitar mentiras, tenho de resistir à frase estafada “o meu sonho de menino era ser escritor!”. É verdade que desde cedo me assinalavam algum jeito para as letras; mas não houve quem me guiasse as leituras, quem me orientasse os estudos, quem me ajudasse a perspetivar os passos seguintes. Naveguei ao sabor da corrente batendo com estrondo nos sonhos ou objetivos que me iam surgindo quase por acaso. Porém, houve uma paixão precoce que tentei cumprir. Queria ser jogador de futebol. Queria participar num mundial de seleções.

Cresci a jogar à bola todos os dias. Entrei para Desporto no secundário e, na adolescência, joguei federado num clube de bairro que levava cabazadas no campeonato distrital; éramos tão fracos que exultávamos quando marcávamos um golo, mesmo que antes já tivéssemos levado cinco… O meu papel era jogar à defesa, numa marcação cerrada ao ponta-de-lança contrário. Eu e o meu adversário participávamos num duelo que nos alheava de tudo o resto. Como se também no campo de futebol precisasse de me esconder. Fui demasiado preguiçoso para tirar partido das capacidades que pudesse ter para o futebol e, um dia, rejeitaram-me noutro clube de bairro. Fim do sonho. Adeus mundial.

A realidade venceu e a escolha profissional tornou-se primordial. Por ter pais informáticos que talvez pudessem abrir portas no mundo do trabalho, lá naveguei com turbulência e aversão pela matemática. A aventura dos algarismos seguiu até à crise determinante: um teste com um 2 numa escala de 20. Estava no ano escolar pré-universitário e sou capaz de jurar que o professor escreveu na folha de ponto: “Não sabe o que está a fazer.” Tinha razão. E desabei, incapaz de antever o meu futuro.

Acudiram-me as letras, sub-repticiamente, através da tentativa desesperada de acabar o ano num exame de filosofia. A hipótese era remota: não tinha frequentado essa disciplina e renunciara a estudar a matéria, convencido de que o melhor seria repetir o ano só com a matemática em cima da mesa. Entrei para a sala de exame com a intenção de fazer “companhia” a dois amigos. Dediquei-me a inventar elaboradamente sobre o que me perguntavam, num exercício de liberdade de quem não tem nada a ganhar. Tenho pena de não ter ficado com esse exame; na pauta, ele surgiu positivo. E foi assim que pude entrar para a universidade, para cursar comunicação social.

Sim, é verdade, nunca quis ser escritor embora gostasse de ler e escrever. Mas para mim a imagem de escritor sempre teve algo de inatingível. Se não tinha tido talento para jogar futebol, se não tinha conseguido domar a matemática, como é que poderia aspirar a tornar-me escritor? Limitei-me por isso a usar a escrita como um instrumento para a profissão de jornalista. Ocasionalmente, vertia palavras em cartas de amor e desamor, em poemas desconexos e maltrapilhos, em contos para olhos amigos. Escrevia. Mas nunca me senti febril ao ponto de adoecer.

O tempo passou. E foi numa altura da vida em que as mudanças já surgem inesperadas que acabei por descobrir a minha doença. Adoeci quando me coloquei o desafio de escrever um romance. Adoeci quando o terminei e senti que precisava de escrever mais. Não por me considerar um escritor; apenas por estar doente. Não podia parar. Continuo a olhar para a imagem de um escritor como alguém inacessível em termos de génio. E é por isso que tento trabalhar a minha doença da escrita. Procuro cumprir os treinos a que faltei no futebol; tento completar os exercícios que não fiz na matemática; empenho-me em cultivar ainda mais o gosto pelas letras, pelo livro, pelo papel. Gosto de escritores. E, por enquanto, se me sinto igual a eles é no ponto de também saber que sou um ser danificado. E que é na escrita que, paradoxalmente, encontro alívio. É na ficção que me protejo do exterior assustador e do interior ferido. É na escrita que tento curar-me de mim próprio, enquanto me torno noutro tipo de doente.

A infeção generalizou-se; tomou-me conta da vida, dos horizontes, dos desejos, dos medos, das raivas. E sempre que me atrevo a dar mais um passo nesta ambivalência de doença que pode curar (nem que seja por um momento ilusório), passo os dias a escrever. Como hoje.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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2 respostas a a doença do escritor

  1. Este seu texto semsibilizou-me, Paulo, porque vejo muitas semelhanças com a minha própria vida. Também me custou descobrir que tinha esta doença, também ia a caminho dos quarenta. “o meu sonho de menino era ser escritor!” é uma frase que me é tão desconhecida como outras do género: “Cresci rodeada de livros”; “o gosto pela leitura foi-me introduzido no berço”; “os meus brinquedos foram os livros”; “devorava livros”; “sempre quis brincar com as palavras”.

    Se tiver pachorra, pode ler o que escrevi aqui:

    http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2012/06/ao-domingo-com-cristina-torrao.html

    Se não tiver, não faz mal. Foi bom deparar com esta espécie de afinidade ;)
    Felicidades!

    • paulommorais diz:

      claro que lerei Cristina, com todo o gosto, também já andei a explicar-me no “tempo entre os meus livros”. talvez a parte essencial do que escrevi esteja na falta que faz quem puxe por nós, quem nos vislumbre o que nós somos (ou podemos ser) ainda antes de o percebermos. claro que nunca é tarde para começar ou nos descobrirmos. mas se tivesse sido mais cedo, também não faria mal, não é?

      talvez não. afinal de contas, dizem que tudo acontece quando tem de acontecer.

      obrigado pela partilha!

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