remédio envenenado

passadeira-interrempidaQuando julgamos ter finalmente entendido o que somos e o que queremos ser, aparecem obstáculos que nos testam a vontade. Nos testam a força e resiliência. Nos testam a loucura de continuar a caminhar em frente, porque em frente já não temos uma passadeira. Temos o abismo.

Até agora, no que tenho escrito, nunca consigo resistir a deixar uma ponta de esperança a pairar, mesmo no meio do maior negrume. É como se essa chama, por mais ténue que seja, precise de manter-se acesa para que se consiga suportar tudo o que não faz sentido. E há tanto que não faz sentido. Olhamos em redor e somos assolados pelo desespero. Estamos sem referências, sem ideais, sem horizontes, o que acaba por nos devolver à condição de pensarmos aquilo que somos e o que andamos a fazer. As distrações para a mente já não são panaceia. Os objetivos corriqueiros de vida, que evitam o confronto com a nossa essência, acabaram por arder em grossas colunas de fumo cinzento. Vivemos num templo de cinzas. E somos obrigados a ir procurar razões no nosso interior para reorganizar o sentido das coisas.

É difícil encontrar essa energia vital no exterior. Sim, há os filhos. Mas eles crescem. Sim, há a amizade. Mas ela desfaz-se. Sim, há o amor. Mas ele desgasta-se. Sim, há a família. Mas ela dilui-se. E morre, tal como os animais de estimação. Sim, há uma constelação de estrelas brilhantes a que nos podemos agarrar e que definem o nosso rumo, seja durante meros segundos ou longas décadas. Mas basta uma nuvem carregada para lhes ofuscar o brilho. No fundo, somos seres solitários. E temos de abraçar a solidão, temos de aceitá-la e compreendê-la, para depois esticarmos melhor os braços em direção ao que nos rodeia.

Na minha solidão, acabei por descobrir e aceitar que sou um ser que, para o bem e para o mal, se expressa melhor através da escrita. Sou um ser humano que se compõe mais inteiro através das palavras. E nisso, corro o risco de o que escrevo não ecoar em mais ninguém. Corro o risco de viver numa redoma, isolado nas minhas palavras, mergulhado nas incapacidades de socialização básicas. Mas também é nas linhas de palavras escritas (tal como nas lidas), que me sinto mais próximo de ser gente. Mas também é nestes textos solitários que antevejo a melhor hipótese de estar acompanhado. Para mim, a expectativa de ser lido não se relaciona com fama ou sucesso. É apenas a minha forma de tentar comunicar; é a minha forma de me integrar no outro.

A literatura, a par das outras artes, tanto pode ser uma maneira de expressão individual como uma tentativa de ganhar a vida. Por vezes, as duas parecem incompatíveis. Quando nos sentamos para escrever tolhe-nos as dúvidas sobre os alvos da nossa escrita (nós próprios ou outras pessoas?), sobre os temas da nossa escrita (para nos testarmos e curarmos ou para agradar a milhares de leitores?), sobre a forma da nossa escrita (fiéis à nossa impressão digital ou direcionados ao que os críticos querem ler?). Geralmente são perguntas sem resposta imediata e fácil. Este é um caminho que se faz em passos pequeninos, a tatear o solo como um animal medroso e desorientado na imensidão da savana. É um trajeto cheio de perigos e armadilhas. E quando tombamos, torna-se difícil arranjar coragem para nos reerguermos.

Quando sou fiel à minha matriz naquilo que escrevo, acabo sempre por incluir a tal ponta de esperança, o pingo de utopia, o nozinho meio desatado. Foi isso que aconteceu nos romances que escrevi. Foi isso que aconteceu com a Eva do «Revolução Paraíso», a certa altura desaparecida e depois ressuscitada, por ser-me impossível contrariar essa acendalha de confiança, mesmo que intoxicada, no que está para vir.

Dizem que o confronto com a obra publicada é um dos maiores tormentos dos escritores. Por diferentes razões fui obrigado a reler o «Revolução Paraíso» já por duas vezes. E além dos erros e ineficiências encontrados, nada me custou tanto como a sensação atual de que devia ter contrariado a minha matriz. Neste momento, em que uma porta se fechou para os meus livros, em que recolheram a passadeira que me levava de encontro aos outros, apetecia-me reformular o final do romance. Apetecia-me torná-lo apenas num quadro desesperado. Apetecia-me arranjar as palavras que dessem machadadas fatais na esperança, que avisassem os demais incautos de que é melhor não sonharem. Queria escrever um fim que mostrasse que não vale a pena entrar dentro de nós para tentar descobrir o que somos, pois isso pode ser um passaporte para um nada ainda maior do que aquele que já tínhamos.

Se um dia tiver a coragem – e a arrogância – de me considerar escritor, estarei a confrontar-me com uma decisão de vida que me coloca diretamente à beira do abismo. O precipício está ali à minha frente, a chamar-me: «Vem. Dá o passo. Aceita-te.»

Todos os dias procuro fingir que não dei esse passo. Mas talvez já o tenha dado, sem querer reconhecê-lo. Talvez seja por isso que me senti despenhar ao ser confrontado com o facto de que não sou feito de letras mas sim de algarismos, que o meu valor é determinado pelo total de vendas e não pelo carinho dos poucos leitores que o «Revolução Paraíso» alcançou, que a minha escrita não é um modo de expressar-me mas sim uma equação de rentabilidade. Claro que fui ingénuo ao pensar que aqui, neste mundo da literatura, poderia ser diferente. Talvez por ser feito de ilusões acabei por cair desamparado no chão. O embate não me desfez só a cara; desfez-me o âmago ao ponto de questionar a minha própria fé. A queda magoou-me ao ponto de querer mutilar a minha utopia de que todos temos a hipótese de nos tornarmos melhores e mais consentâneos com a nossa essência. E o choque obrigou-me a questionar, novamente, aquilo que pensava já ter descoberto sobre mim: que sou feito de letras, mesmo que as palavras que componho com elas não possuam relevância monetária.

Mantenho-me suspenso na dúvida sobre se dei o passo e já me encontro, de forma irreparável, no fundo do precipício; ou se ainda estou de pé levantado no ar, a tempo de refrear o movimento e recuar. Recuar até ao ponto de me reintegrar no mundo que conheci durante anos e anos, durante “meia vida”, onde o quotidiano me obriga ao duro confronto com as minhas angústias e insuficiências, onde me sinto menos capaz de conseguir comunicar com o outro.

Encontrarmos o remédio para a nossa solidão intrínseca pode ser, às vezes, uma maldição. E sobre o que representa esse bálsamo envenenado, só me resta uma possível catarse: escrever.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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6 respostas a remédio envenenado

  1. Morrighan diz:

    Paulo, adoro este teu sítio e, por favor, nunca pares de escrever. Acredita, as tuas palavras também têm eco em outros. Revolução Paraíso foi um marco na tua vida, mas outros chegarão, mais e melhores, mesmo que demore o seu tempo. Tem confiança em ti, eu cá tenho-a toda. Muita força.

    • paulommorais diz:

      sim, não desisto. esta escrita de catarse serve também para superar crises, recuperar forças e esperança. obrigado pela confiança e carinho, Morrighan.

  2. Anónimo diz:

    Revejo-me mais nestas palavras do que possa imaginar… mentira. Imagina, sim, porque temos conversado online. Gostava de enviar palavras de ânimo como a Morrighan, mas não sei bem se as tenho.

    • paulommorais diz:

      este seu comentário equivale a ânimo. mais do que nunca, é preciso ir mesmo mesmo ao fundo buscar a réstia de tudo o que lá tivermos de positivo.

  3. Paulo,
    confesso-lhe duas coisas. Se a primeira – que não fazia ideia de que o meu caro existia – pode não ser a melhor coisa para se ter consciência já a segunda – que agora que o descobri ganhou um admirador e um futuro leitor – pode ser interpretada como bom prenúncio.
    Na minha insignificância pouco ou nada represento para além daquilo que sou mas desejo que este meu comentário sirva como exemplo, ainda que porventura muito pobre mas ainda assim um exemplo, que quando menos esperamos uma luz se acende.

    Este seu Revolução Paraíso cativou-me o suficiente para o adquirir num futuro próximo. As suas palavras, que apenas hoje conheci, merecem-me muito respeito.
    Desejo-lhe o maior sucesso.
    Um abraço.

    • paulommorais diz:

      André: é impossível explicar a gratidão que se sente quando conhecemos um leitor. mais do que as críticas literárias, os números de vendas, as entrevistas nos jornais, há um momento único de “conhecer” um leitor. porque esse é o lado humano da literatura que coloca lado a lado (mesmo que no mundo virtual) quem escreve e quem lê. obrigado pelas palavras aqui deixadas. pode ter a certeza de que não são nada insignificantes. bem pelo contrário: agigantam-se.
      um abraço

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