o túnel do passado

(…) porque eram precisamente esses sentimentos que eu pretendia enterrar que me empurravam para um pequeno cinema de bairro, porque então eu ainda não sabia que apesar de se crescer e por mais que se olhe para o futuro, uma pessoa cresce sempre para o passado, talvez à procura do primeiro deslumbramento.
JUAN MARSÉ
O Feitiço de Xangai

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Uma ressalva importante: não tenho qualquer história macabra para contar sobre a minha vida; não tenho qualquer acontecimento verdadeiramente grave escondido no meu passado. Ainda assim, todos acabamos por ficar marcados com as nossas cicatrizes.

Quando me propus a publicar textos regulares neste blogue não me via a resgatar as minhas memórias para encontrar temas de escrita. O certo é que lá fui parar, quase sem dar conta disso. Ao despertar para o que estava a acontecer, pensei contrariar o impulso; mas nessa altura a minha mente já andava a vasculhar a infância e a pré-adolescência em busca do que fosse relevante. Resolvi acatar a pulsão, embora sob a premissa de estar somente à procura de episódios caricatos e inocentes, que pudessem ser partilhados publicamente sem ferir a suscetibilidade dos intervenientes diretos. E lá parti na máquina do tempo, enredado pela visão algodão doce do meu passado, como se fosse visitar um conto de fadas.

Carreguei no botão da memória e, mesmo face à ausência de dramas de faca e alguidar, nada é tão meloso como o idealizado. Também é verdade que, assim a grande distância, nada se mostra verdadeiramente amargo. As recordações, limpa a patine do tempo, assumem um tom realista, onde os sentimentos (mesmo que toldados por um olhar deturpado) quase se tornam palpáveis. Perante o desfilar de memórias, senti-me num impasse: quando recordamos o passado, isso não representará apenas o revolver cínico da terra – à procura do sórdido, do traumatizante –, para efetuar um ajuste de contas? Não será que quando decidimos puxar pelas memórias estamos a planear a cisão fria e umbilical com quem forjou o que somos hoje?
el-embrujo-de-shanghai

Haverá certamente quem descubra ou percecione, seja num poema ou num texto autobiográfico, laivos de vingança. Porém, mesmo correndo o risco de defender uma imposição do “eu” ao “eles”, encontro neste túnel para o passado mais um abraço do que um corte. Puxar pelas memórias é olhar para o nosso umbigo e entender as feridas que temos por tratar. É assumir que temos um direito de posse sobre as nossas mágoas. É defender o direito a confrontar e interrogar as nossas memórias, não no sentido estrito de encontrar culpados e bodes expiatórios, mas sim na tentativa de aceitarmos o que foi a nossa vida. E, se o quisermos ou se o necessitarmos, de podermos mostrar esses episódios a outros olhares, na procura de uma empatia com quem os possa ler.

Uma viagem autobiográfica não tem, à partida, de ser um exercício gratuito e pejorativo, próprio de mercenários e usurpadores. Tudo depende da forma, do objetivo, da sensibilidade. Quem assina um relato autobiográfico acaba por ser o principal réu perante o tribunal dos leitores. Caso eu publique algo sobre a minha vida, serei julgado por cada sentença que emitir, por cada juízo que expressar, por cada inconfidência que revelar. Serei eu o julgado pelo modo, mais ou menos despudorado, que encontrar para expor as minhas raízes.

Este risco de nos desnudarmos perante os outros é enorme e inibidor. Para mim, escrever sobre o passado é apenas um artifício para tentar dialogar com o que fui; é um estratagema para sarar o que me tenha ferido; é um mecanismo para tentar emancipar-me das fissuras no meu ser que ainda hoje me estejam a retrair a existência.

Quando se rebuscam as memórias, não é obrigatoriamente o nosso passado que está em causa: é o nosso presente.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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