compro o que é nosso: menos literatura [tomo 2]

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Afinal: não se lêem mais autores portugueses porque os leitores não se interessam assim tanto pela literatura portuguesa? não se lêem mais autores portugueses porque as editoras não promovem os escritores adequadamente? não se lêem mais autores portugueses porque ninguém nos mostrou e ensinou a gostar do que se escreve por cá? A literatura em Portugal lembra a pescadinha de rabo na boca. E o mais fácil, demasiado fácil, é colocar a “culpa” no elo final desta cadeia ao afirmar que se publica o que os leitores querem ler. Não, os leitores não são a culpa; são a solução. Por serem os resistentes que ainda lêem livros. E, se tiverem hipótese, os resistentes que ainda compram livros. Onde falha então uma ligação mais estreita da literatura com o movimento “compre o que é nosso”?

Aquando da importação das primeiras telenovelas pela nossa radiotelevisão, rapidamente se estabeleceu o paradigma de que a telenovela brasileira era insuperável. Timidamente, Portugal lá fez as suas incursões no género, com resultados obrigatoriamente oscilantes. E foi ainda num panorama de domínio do produto brasileiro que alguns decidiram apostar na ficção portuguesa. Após anos de investimento continuado, hoje vive-se uma nova realidade no campo das telenovelas e séries transmitidas nos canais generalistas. Não discuto critérios de “qualidade”, embora me pareça que exista uma oferta diversificada e adequada a vários tipos de expectativas e gostos. Deu-se uma generalização do “vejo o que é nosso” nos canais abertos. E a mudança, que muitos ajuizavam de “impossível”, contribuiu para dinamizar uma indústria que movimenta inúmeros profissionais e áreas de forma directa e indirecta (actores principais E secundários, guionistas, realizadores, técnicos de som e imagem, revistas especializadas, gráficas, papelarias, etc.).

Na literatura, o caminho a desbravar parece bem mais espinhoso. Nisto de autores portugueses talvez tenhamos mais resistências do que assistências. É certo que, felizmente, há exemplos de gente empenhada em relação à literatura lusófona. Ainda assim, como foi longo e árduo o percurso de muitos escritores portugueses agora consagrados. Ainda assim, como é complicado apostar num autor português estreante e ter condições ou vontade em acompanhá-lo num trajecto em que a evolução (desde a qualidade da escrita ao número de leitores) se alcança, na maior parte dos casos, através de uma publicação continuada.

Enquanto os portugueses se congregam em redor de causas comuns, a aldeia da nossa literatura mantém-se entretida nas suas quezílias internas. Há mais especialistas em desacordos do que em acordos entre os escritores, críticos, políticos, livreiros, divulgadores, professores, leitores, editores e tudo o resto que intervém no livro. Nunca faltam argumentos válidos para justificar as divergências de opinião, critério, estratégia. Além disso, há sempre a frieza dos números: as vendas, as audiências, as margens. A situação já era periclitante, face à dimensão reduzida do mercado e aos escassos hábitos de leitura, mas agravou-se face aos actuais constrangimentos económicos. E quando se questionam os porquês deste estado de coisas, desta falta de oportunidades para os estreantes, deste esquecimento dos antigos, deste marasmo dos desconhecidos, a resposta coloca o ónus nos leitores. Isto da relação entre leitores e autores portugueses é uma fatalidade do nosso “mercado”, dizem. E não há nada a fazer.

Será? Enquanto houver edição de livros, talvez seja necessário assumir o problema de que a literatura portuguesa, no geral, vende pouco. Muito bem. Não sou especialista para encontrar as soluções milagrosas que aumentem a conexão entre os leitores e os autores portugueses. Os intervenientes no livro que se reúnam para traçar novas dinâmicas e políticas de divulgação da literatura em português. Que pensem em novos slogans – tal como aconteceu noutras áreas  -, um “Leio o que é nosso”, um “Autores lusófonos: a minha primeira escolha”. Que imaginem formas de contrariar o que persista do estigma “só o que vem lá de fora é que é bom”. Sem uma alteração profunda, assente na crença de que temos um conjunto de escritores de talento e mérito, será cada vez mais complicado obter oportunidades reais para que surjam novas vozes, novos géneros, novos caminhos dentro da nossa literatura.

Pessoalmente seria incapaz de passar sem livros de autores estrangeiros; mas isso não me serve de desculpa para as lacunas que tenho em relação aos autores portugueses, sejam eles clássicos ou contemporâneos. Nasci neste país, falo, leio e escrevo esta língua. E sinto uma obrigação crescente em descobrir, apreciar e sugerir aquilo que se escreveu e se escreve em língua portuguesa. Neste panorama económico adverso, é urgente encontrar quem acredite que vale a pena defender, com alma e coração, o autor português. O horizonte parece negro. Mas se ainda há uma centelha animadora nesta escuridão é a de que todos podemos dar um contributo válido. Sejamos um editor, uma escritora, um crítico, uma professora, um livreiro, uma gestora, um político, uma leitora, haverá sempre um momento de decisão em que está nas nossas mãos reverter os pesos na balança. Se amanhã todos déssemos primazia aos escritores que escrevem em português, só isso não seria já o suficiente para agitar as águas estagnadas do famoso “mercado”?

[este texto foi escrito sem acordo ortográfico. quando agora se parte para a escrita de um livro, não há possibilidade de agradar a gregos e troianos. se escrevemos sem AO, estamos a contrariar o que já se ensina nas escolas; se escrevemos com AO, estamos a afastar os possíveis leitores que se opõem à mudança. até na base da nossa literatura estamos desavindos.]

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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