um ano de «Revolução Paraíso»: um ano de utopia

O «Revolução Paraíso» teve a sua sessão de lançamento a 19 de Abril de 2013. Foi um dia de emoções fortes e muita esperança. Naquele momento, o mundo era uma porta aberta. Passado um ano, a porta voltou a encostar-se. Mas enquanto conseguir vislumbrar uma frincha que seja, acreditarei o suficiente para repetir e sentir as palavras ditas aos que me acompanharam naquela tarde de utopias.

 

“Nasci em Fevereiro de 1972. Não soube o que era viver em ditadura, não fiz o 25 de Abril, não participei no PREC. Como aconteceu com parte da minha geração, cresci com um vazio de memórias sobre o tempo pós-revolucionário. Cresci com um espaço oco que não foi devidamente preenchido por escolas e professores, livros e filmes, histórias de pais e avós. É certo que houve vislumbres momentâneos. Mas foram insuficientes para colmatar a realidade de ter nascido num período transitório.

Apesar disso, sinto que também sou culpado da minha ignorância. Fui eu que não perguntei, fui eu que não pesquisei, fui eu que não soube escutar. Ainda era estudante quando a minha avó Luz me legou uma série de álbuns de capa parda, onde colara, com minúcia, centenas de recortes da imprensa da pós-Revolução. Estava em falta o primeiro volume, precisamente o que incluía as notícias sobre o dia 25 de Abril. Talvez o paradeiro desconhecido desse álbum histórico tenha toldado a minha visão sobre a relíquia que me fora passada… e os recortes serviram apenas para um insignificante trabalho universitário antes de serem novamente fechados numa caixa de cartão. E se é certo que sentia o peso na consciência de um dia dar utilidade àquele espólio, também é verdade que durante quase vinte anos me faltou a curiosidade de querer saber tudo sobre o nosso período revolucionário.

Foi em 2011, já sem emprego fixo, num país com negras perspectivas de futuro, num mercado de trabalho que dinamitou o jornalismo, que resolvi resgatar a caixa de cartão. Abri-a no mês de Abril, como um presente tardio de Natal. Peguei no primeiro álbum e comecei a leitura dos recortes. Mergulhei, sem reservas, nas notícias que me mostravam um país em ebulição. A pós-Revolução soava como um romance trágico-cómico. E durante semanas de leitura voraz, acabei por viver o meu 25 de Abril, os meus primeiros dias sem ditadura, as minhas primeiras eleições livres, o meu PREC. Aos poucos, aprofundei a ideia de escrever um livro que recuperasse as histórias mais humanas e caricatas daquela época.

De certa maneira queria homenagear o trabalho que os jornalistas fizeram na imprensa do pós-25 de Abril. Mas quando comecei a escrever o «Revolução Paraíso» também estava, sem ter total consciência disso, a despir a minha pele de jornalista. Aquela caixa de cartão era, afinal, a minha caixa de Pandora. Apesar da riqueza noticiosa ao meu dispor, eu não queria escrever um livro de História. Queria criar os meus personagens. Queria romancear os factos reais. E então senti que era livre de ficcionar sobre um episódio tão marcante da nossa História. Senti que era livre até de colocar uma mulher de letras chamada EVA a dialogar com os militares e os políticos intervenientes naquela época turbulenta. No fundo, senti-me herdeiro de uma das conquistas de Abril: a liberdade de escrever sem medo, sem tapumes, sem censuras.

Apliquei-me a fundo em tentar recriar a atmosfera da pós-Revolução. Mas depois esforcei-me por ouvir, com a maior fidelidade possível, aquilo que as minhas personagens me queriam contar. E o Adamantino Teopisto, o César Precatado, o Adão, a Deodete, o Marcelinho, a Amália, o Inocêncio, o Manuel Ginja, o Viriato, o Olímpio, a Pandora e a Eva do Paraíso, todos foram desfiando os seus amores e ódios, traumas e ambições, valores e ideais. Apaixonei-me por cada uma destas figuras imaginadas da mesma forma que me tinha apaixonado pela realidade nas notícias recortadas. E nesse momento assumi a minha utopia de, quem sabe, poder vir a transformar-me num escritor.

Utopia? Disparate. A realidade em que vivemos obriga-nos até a suprimir a palavra “sonho” do nosso vocabulário, quanto mais utopia… À nossa volta tudo parece apostado em empurrar-nos para um túnel sem fim ou um poço sem fundo. Querem rodear-nos de uma escuridão imensa. Mas é preciso resistir. Manter acesa a chama do futuro. Resgatar o espírito do 25 de Abril. Acreditemos pois que, neste país renascido sob o símbolo de um cravo num cano de espingarda, ainda existe a liberdade de ter esperança. Acreditemos pois que neste Portugal capaz de uma revolução tão apaixonada e apaixonante, ainda podemos alimentar os nossos sonhos.

Eu, nascido em 1974, não fiz o 25 de Abril. Mas sou filho dele. E hoje, após uma batalha árdua, consegui realizar a utopia do «Revolução Paraíso». A ideia transmutou-se num objecto concreto. Este romance que ostenta com orgulho um cravo brilhante na capa será, a partir de agora, de quem o ler. E por tudo o que ele representa na minha vida, espero bem que consiga encontrar quem goste dele.

Hoje, o meu sonho está cumprido. Amanhã será um novo dia. Um novo dia para fruir a liberdade que nos depositaram nas mãos. Um novo dia para sonharmos sem amarras. Um novo dia para acreditarmos em utopias.”

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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