Eva do Paraíso: a utopia de Abril

Enquanto não há novo livro para mostrar, partilho o que de bom o «Revolução Paraíso» me tem trazido. No Abril em que se comemoraram 40 anos da Revolução dos Cravos, o meu primeiro romance trouxe-me muito e eu disse tão pouco. Não consegui, por exemplo, agradecer devidamente as magníficas sessões com leitores. Em Ovar fui recebido de tarde pelo Carlos Nuno Oliveira e pelo professor Cleto com uma simpatia extrema. Depois, à noite, no Museu de Ovar, vieram as leituras do Carlos, as perguntas dos participantes da Comunidade de Leitores Ovarenses, as recordações e histórias dos tempos do PREC. E já sozinho no meu quarto de hotel, ceei o pão-de-ló de Ovar que me tinham oferecido a folhear os três livros que o Carlos me tinha dado (um para mim, dois para a minha filha Maria). E no dia seguinte passeei com o Carlos pela praia do Furadouro, visitei uma exposição de pintores locais, e despedi-me dele e do professor Cleto e do senhor Silvério, numa mesa de café, a sentir-me como se fosse um amigo de longa data de todos eles, entre comentários sobre como a vida está complicada para as gentes do nosso país, seja na grande cidade ou na pequena vila.

De tarde rumei a Gaia, para nova noite com leitores. Primeiro jantei com os inestimáveis anfitriões Miguel Miranda e Fernanda, preâmbulo para me sentar no sofá vermelho da Livraria Velhotes, frente a uma plateia cheia de leitores empenhados e curiosos, a ouvir uma bela introdução feita pela Maria da Graça Pereira, a travar conhecimento pessoal com amigos da Internet (Paulo Mouta), numa noite tão bem descrita pela Susana Pereira (mas atenção que o texto tem um spoiler do tamanho do livro, quem gostar de surpresas leia só depois…) que só me cabe fazer das palavras dela as minhas. Dormi em casa do Miguel, que além de médico e escritor é um homem bom e preocupado com isto de quem escreve ter de gastar do próprio bolso para estar junto dos leitores, e houve bolo caseiro e chá noturno, e houve pequeno-almoço no dia seguinte, numa esplanada com vista para o Douro, comigo a pensar que o Miguel e a Fernanda deviam dar aulas de bem receber. Voltei feliz a casa.

Mas o Abril dos 40 anos da Revolução ainda não estava terminado. Passada uma semana, fiz longa viagem até Trás-os-Montes, oportunidade de conhecer o Anselmo da Porto Editora, homem de trato fácil, a recuperar de problema de saúde complicado, capaz de conversa franca até Mondim de Basto onde nos receberam com honrarias imerecidas na Papelaria Veloso e depois na Biblioteca Municipal de Mondim de Basto (um edifício muito belo), onde fiz uma apresentação do «Revolução Paraíso», introduzido pelo presidente da Câmara, que não foi um monólogo porque se gerou conversa com a plateia, com perguntas e depoimentos a enriquecerem o momento. E a véspera do 25 de Abril passou-se com versos declamados pelo Vítor de Sousa e canções de intervenção tocadas pelo Paulo Miranda e cantadas por todos. Memorável. Porque Abril é este espírito de comunhão, este momento em que as utopias soam mais alto do que qualquer divergência.

Em Mondim de Basto dormi num sítio extraordinário, rodeado de natureza, e assisti ao amanhecer feito de uma neblina espessa que tapava a vista, como se quisesse ofuscar o brilho da Revolução. Depois, o sol furou o cinzento, para evidenciar que há sempre raios que conseguem sobrepor-se às nuvens mais cerradas. E foi com o Pedro Arada que visitei as quedas de água das Fisgas de Ermelo e subi, de carro, claro, a mítica Senhora da Graça que todos os anos reencontro na transmissão da volta a Portugal em bicicleta. No cimo encontrámos ciclistas. Tirei-lhes uma foto, brinquei com eles – «Vá, onde é que esconderam as carrinhas?» – eles brincaram também, descemos todos, eles a pedalar, nós de acelerador e travão.

Estava na hora do meu contrarrelógio. Era dia 25 de Abril de 2014. Comemoravam-se 20 anos de Revolução e eu num automóvel a caminho da estação da Campanhã, eu num comboio a caminho de Santa Apolónia, eu a pé de mochila às costas e saco de ofertas transmontanas a pesar na mão a caminho do Terreiro do Paço, a ver as pessoas de cravo ao peito a passarem por mim em sentido contrário, a temer que como diz a canção do Chico Buarque já tudo tivesse acabado, “Foi bonita a festa, pá!”, em pânico por perder a data histórica, e depois a respirar fundo, o retrato do Salgueiro Maia a esvoaçar pendurado no Arco da rua Augusta, o Terreiro do Paço ainda apinhado, a rua Augusta ainda apinhada, a praça dos Restauradores ainda apinhada, a mítica chaimite no lugar do costume… E emocionei-me, por causa de um mês quase dedicado ao «Revolução Paraíso», um ano após o lançamento do livro, por ter conseguido chegar a Lisboa a tempo de, no dia 25, ver a minha filha de cravo ao peito e acompanhá-la no cantar da Grândola, Vila Morena.

Ao contrário do que diz uma personagem do meu romance, é música que nunca chateia. Se calhar deviam passá-la todos os dias, nas rádios e televisões, para não esquecermos o que representou a Revolução dos Cravos. E para que tentássemos emendar tudo o que depois se fez para dinamitar a utopia do Portugal paraíso na terra. A Eva que eu inventei, a Eva que eu escrevi, nunca deixou de acreditar. E agora, sempre que vacilo nas minhas convicções, sempre que me abalam as utopias, penso nela. Penso na Eva do Paraíso, encarnação da pureza de Abril, e volto a acreditar: ainda vamos a tempo. Ainda vamos a tempo.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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