a tirania do abraço

Por ser filho de pais separados, a minha família é daquelas que se divide em dois lados. Guardo referências de ambos, mas no lado paternal fui crescendo naquilo a que agora chamo a tirania dos abraços. Não falo de afectos, os quais sempre estiveram presentes, principalmente através dos avós. Porém, a demonstração desse sentimento de união nunca se fez pelo abraço. Como se o contacto físico entre quem se gosta fosse algo de prescindível. Despropositado. Desnecessário.

Desde cedo que o meu avô paterno se tornou uma das minhas referências. Cheguei mesmo a idolatrá-lo. E isto sendo um avô que jamais telefonou ao neto. E isto sendo eu um neto que nunca telefonou ao avô. A nossa relação era feita de certezas, as quais eram comunicadas por escrito. O meu avô demonstrava o quanto gostava do neto numa carta especial, numa dedicatória de livro, num cartão de parabéns, num poema escrito de propósito. Mas o abraço, aquele abraço que não é de cumprimento, não fazia parte da nossa relação. O mesmo com a minha avó. O amor pelo neto era feito de outras matérias, assente em palavras de incentivo ou repúdio, numa constante relativização dos males de vida. Nunca me faltou o afecto deles. Mas, por exemplo, cresci sem saber o que era um abraço que só serve para reconfortar.

Fiz-me adulto assim, a pensar que os meus dois braços serviam para jogar, trabalhar, nadar, carregar, e que eram desnecessários para demonstrar o quanto gostava das pessoas em meu redor. Apliquei a tirania do abraço, sábio de que bastavam as palavras para exprimir os meus sentimentos. Pelo meio surgiram excepções capazes de furarem esta dificuldade física, como a de um amigo a quem ainda hoje cumprimento sempre com um abraço e três beijos. E, com o passar dos anos, acabei por reconhecer o padrão em que fui criado e que, meio inconscientemente, continuava a repetir. Ainda assim, aquele abraço vindo do nada, dado só porque sim, continuou raro da minha parte.

Então veio a Maria. E foi com a minha filha que percebi os matizes da tirania do abraço. Aquele bebé não entenderia as cartas que lhe escrevesse. Aquele bebé não entenderia as palavras que lhe dissesse. Aquele bebé precisava do meu abraço. Talvez tenha sido aí, nesse momento, sem dar conta, que aprendi a abraçar. Talvez tenha sido aí, já a caminho dos quarenta, que comecei a emancipar-me da tirania do abraço. Com a minha filha passei a concretizar os meus sentimentos em actos. E comecei a tentar replicar os abraços aos outros membros da família, combatendo os hábitos instituídos. Ainda consegui abraçar o meu avô. Mas noutros contextos e relações já não fui a tempo de remediar os abraços que tinham ficado por dar da minha parte.

Com a Maria, os abraços saem-me naturalmente; são parte crucial da nossa relação, tanto quanto a vocalização do afecto ou a representação escrita e desenhada do nosso amor. Mas agora há mais abraços, muito mais, dados com gosto a amigos, a familiares… Abraços genuínos que falam por si.

Não sei se já estou curado da tirania do abraço. Mas esforço-me cada vez mais por me libertar da formatação em que fui criado, exacerbada por uma personalidade tímida.

Não sei se já estou curado. Mas há uns meses atrás, a flanar sozinho pelo Chiado, passei por três jovens que empunhavam cartazes com o dizer “Dão-se abraços de graça”. Continuei a marcha, meio sorridente. Depois, parei alguns metros à frente. Virei-me para os olhar de novo. Reli o cartaz. Voltei atrás. E dei um abraço a cada um deles.

egon-schiele_the-embrace-1917

O Abraço (1917), de Egon Schiele

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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3 respostas a a tirania do abraço

  1. Carmo Faria diz:

    Pois é Paulo 😏
    Todas as experiências nos fazem aquilo que hoje somos.
    E tu és um homem lindo que escreve os seus sentimentos com enorme transparência.
    No caso do abraço, sentimentos com os quais bastante me identifico.
    Bela prosa! Grata por partilhares.
    UM ABRAÇO (do coração)

    Sabias que o tango é a dança do abraço?

    • Obrigado, querida Carmo. É verdade, tento não ter filtros na escrita, tal como na vida, mesmo correndo o risco de parecer despudorado.
      Não sabia essa do tango. Bate certo. Gosto muito de ver dançar o tango.
      Um abraço (sempre do coração)

  2. Pingback: Cancro, livros, árvores e humor negro | oráculo de Morais

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