Cancro, livros, árvores e humor negro

Devia começar este texto com um aviso: se não gostam de humor negro, se acham ofensivo brincar com assuntos sérios, é melhor não lerem nem mais uma palavra.
Comecei mesmo como devia. Adiante.

Em dezembro de 2014, ao preparar a mochila para o meu internamento, precavi-me e incluí um par de livros entre as mudas de roupa interior e os produtos de higiene. Levei para o hospital o Dizem que Sebastião, do João Rebocho Pais (comprado na anterior Feira do Livro de Lisboa), e a poesia do Rui Miguel Fragas (Rui Féteira), reunida em O Nome das Árvores, um livro oferecido pela Virgínia do Carmo. A estadia prolongou-se, passou por dois hospitais diferentes, e a bagagem inicial esgotou-se rapidamente. Era altura de pedir mais leituras e os amigos que me visitaram reforçaram o carregamento. A Sónia Alcaso levou-me Domingos de Agosto, do nobelizado Patrick Modiano, o Heitor e a Lídia deram-me o tão desejado e pedido Quem disser o Contrário é porque tem Razão, do Mário de Carvalho, (depois, no meu aniversário, ainda acrescentaram O Meu Amante de Domingo, da Alexandra Lucas Coelho), e a Cristina Drios ofereceu-me Pão & Vinho, do Paulo Moreiras (nota: a quimioterapia nem sempre se dá bem com as comidas, ou até com as leituras sobre comidas, por isso este ficou guardado para saborear em tempos com menos enjoos…). Sempre prático, o Pedro Nunes emprestou-me um tablet com um daqueles jogos que só servem para perder tempo, mas que foi precioso nos dias de maior náusea, onde até a literatura parecia agoniar.
Já em casa, por causa dos meus posts dos tratamentos em que apareciam livros, o espectro de solidariedade alargou-se. A Tânia Ganho enviou-me o seu A Mulher-Casa, o Richard Zimler fez o mesmo com o seu A Sétima Porta, e o Hélder Magalhães remeteu-me o seu Iluminado, onde relata a sua experiência com o cancro. A minha amiga Magda, após perscrutar a sua biblioteca, emprestou-me o Índice Médio de Felicidade, do David Machado; e a Isabel Guarda ofereceu-me o Abraço (um título com sentido especial, devido ao post a tirania do abraço que eu que tinha escrito), do José Luís Peixoto.
Tantas páginas apetecíveis. Acontece que a biblioteca do meu tio também está repleta de títulos que constam da minha lista “a ler”. Como forma de lhe agradecer a hospedagem temporária, tratei de reorganizar-lhe as prateleiras por temas, por autores, por “famílias literárias”, e acabei por ficar com os livros que encontrei repetidos. De repente, a minha biblioteca pessoal (tão depauperada de novas aquisições durante os últimos anos de crise), ganhou uma série de novas lombadas. E o humor negro começou a rondar o fenómeno…

Entendam isto: uns dias após obter o diagnóstico, tentei logo advogar – e cumprir – que não podia perder a oportunidade de “fazer humor negro comigo próprio” e de, sempre que possível, desdramatizar o peso ainda existente em torno da palavra “cancro”. (Habituemo-nos de que esta é, e será, uma das doenças dos nossos tempos; interessa mais o que vem a seguir ao cancro, ou seja, o tipo, o local, o estado em que está, o tratamento viável, etc.). O humor que faço não é leviano; perdi a minha mãe à custa do cancro. E ainda hoje me rio da piada, cuja proveniência original se esfumou, que reza assim: “A tua mãe é a melhor sogra do mundo… Já morreu!”
Ora, se agora faço humor com as generosas ofertas de livros, não se trata de ingratidão. Julgo que todos os livros foram devidamente agradecidos, de forma privada. Mas como resistir a encontrar a anedota neste afluxo literário inesperado? Difícil… Portanto, eu e o meu amigo Pedro, durante um jantar, dedicámo-nos a inventar um slogan para o referido acréscimo. Eis o vencedor:

“Queres livros grátis? Arranja um cancro!”

Está cumprido o humor negro, mas o texto não terminou. Faltou-me falar de um livro, oferecido pela Raquel Serejo Martins, quando eu ainda estava no hospital inundado de incógnitas sobre diagnósticos e tratamentos. A minha companheira e amiga do Cole©tivo NAU, levou-me o seu A Solidão dos Inconstantes. Na dedicatória, escrevera algo a que me agarrei imediatamente: “Poucas coisas me deixam sem palavras. Venha o Verão, para plantarmos uma árvore juntos.” Despedia-se “com o meu coração” e ficou tão transtornada com a visita que, ao sair, embateu violentamente na porta. Perante o estrondo, ainda fiquei na dúvida se ela seria a minha nova parceira de quarto…
Mais tarde, através duma mensagem escrita, respondi-lhe à dedicatória que me emocionara, afirmando-lhe convictamente que sim, que chegado o verão, passada a tormenta, plantaremos essa árvore, em Trás-os-Montes, a quatro mãos e dois corações. Com o Ricardo dela a fotografar e amigos e familiares em redor para abraçar.

Os livros que me ofereceram durante este período, que tanta e tão boa companhia me fizeram, vão ter lugar especial na minha memória e biblioteca. Agora, só falta escolher o sítio para a nova árvore.

[Adenda1: Este texto foi escrito e publicado no meu blogue no preciso dia em que, horas depois, soube da morte do Luís Miguel Rocha. Tratei imediatamente de retirá-lo. Nesse momento, era impossível brincar com o tema cancro. Mas, decorrido algum tempo, acho que o Luís, tal como a minha mãe, não levará a mal. Se isso for possível, talvez até se ria.

Adenda2: Nos meses que se seguiram à escrita do texto, vieram mais ofertas de livros que não estão consagradas na fotografia, mas que não posso deixar de referir. A Paula Dias enviou o Três pianos e outros exercícios, o Marcelo Teixeira expediu logo três com a chancela da Parsifal (A Montanha e o Titanic, de Luísa Franco, Impunidade das Trevas, de Manuel da Silva Ramos, O Exército Iluminado, de David Toscana), a Isabel Rio Novo enviou Histórias com Santos, a Carla M. Soares, sob o símbolo do Colectivo NAU, remeteu O Cavalheiro Inglês, e a Aida Gomes fez-me chegar, através do “Livreiro de Sines”, o seu Os Pretos de Pousaflores. Irão todos para o lugar especial do armário-livreiro que rejuvenesceu com a mistura de óleo de linhaça e aguarrás, por fazerem mais parte de um período de vida do que de uma qualquer divisão temática, geográfica ou autoral.]

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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Uma resposta a Cancro, livros, árvores e humor negro

  1. anabela gaspar frança pais diz:

    No meu próximo livro, editado pela Chiado Editora, que me respondeu sem demora… Falo do “cancro da alma”, não menos importante do que aquele que explode no físico… Refiro-me ao livro A Lição de Deus (romance). É o cancro que nos torna indiferentes a tudo, cegos, revoltados, oprimidos e que mata, através do entrapment, se não existirem profissionais de saúde competentes, que o detetem a tempo… Todos os meus livros, contos, ensaios, romances, abordam temas pedagógicos, como o HIV/SIDA, em Não Há Inverno Sem Lágrimas, corretos do ponto de vista científico, porque lidos, depois de escritos, por médicos das diversas especialidades. Este último incluiu, como uma das temáticas, a depressão.

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