Voar pelas nuvens de palavras

Quase seis meses depois, iniciei novamente o ficar uma semana inteira com a minha filha. O momento representa o recuperar de velhas rotinas, como a de ir à biblioteca buscar livros e DVD infantis. A leitura da primeira noite – “O Nó dos Livros”, da Margarida Fonseca Santos -, acabou por ter significado especial por falar de um menino com um nó na garganta.
Esta bonita história é um trajeto de descoberta com passagem por vários sítios diferentes, onde se encontram nós diferentes, uns exteriores (nó da madeira, nó de marinheiro, nó de gravata), outro impossível de compartilhar (esse maravilhoso “dar o nó” cuja ilustração nos mostra um coração preenchido por beijos, amizade, paixão, respeito, confiança, partilha, amor, abraços, companheirismo e humor), mas que não resolvem o problema do nó na garganta. Esse nó é interior. E cabe-nos desatá-lo.
O livro podia ser uma metáfora. Nesta caminhada, o grande nó na minha garganta era o do pai e da filha. Desatou-se agora, em definitivo. A cada minuto do presente, constato que não se perdeu nada: o afeto permanece igual; o amor continua forte. Verifico também que a semana será exigente. Não que a Maria dê trabalho por ela. Nada mesmo. É apenas o esforço necessário para executar as tarefas inerentes ao cuidar de uma criança (o despertar mais cedo, a escolha da roupa, o arranjar dos lanche, as deslocações entre casa e escola, a verificação dos trabalhos, a ajuda no banho, a preparação das refeições, as brincadeiras…). A semana mal começou e já sinto os efeitos do regresso à rotina de pai.
Estou ciente de que me pus a desatar nós quando ainda não passaram quinze dias desde a última sessão de quimioterapia, com oito ciclos acumulados no cartão e no corpo. Não é sofreguidão. É vontade de fazer. Vontade de recuperar vivências; vontade de construir memórias. Vontade até de renovar os nós na garganta. Além disso, ao fim do dia, naquele momento em que nos sentamos na cama para ler histórias como a que a Margarida escreveu, as leis da física desaparecem. Naquela leitura, a fraqueza dilui-se. Durante aquelas páginas sou jovem. Ou velho. Ou dragão. Ou princesa. Ou árvore. Ou praia. Ou música. Ou tinta. Ou avião. Ou planeta.
Ali, somos um pai e uma filha, já sem nós na garganta, que partem à aventura. E durante uma semana, todas as noites voamos, sem sinal do tal cansaço, por entre as nuvens de palavras que encontramos nos livros.

no-dos-livros

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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