o caminho e a estação

Semana intensa. Cuidar da filha, cumprir um horário mínimo de trabalho, tratar da casa e das refeições. Final de tarde, sexta-feira. Descontrair com um passeio à beira do rio que se torna mar. Ir ali e voltar. Mas o que é o ali? Atravesso o túnel debaixo da linha do comboio. Se virasse à esquerda iria ter à torre de Belém. Viro à direita. Passo pelos andaimes a erguerem-se para o festival de música. Chego à pista de tartã e dou por mim a continuar, não ligando à cabeça que me diz “Olha que vais ter de voltar…”, como se houvesse alguém no final que tenho de socorrer. Não sei bem onde vai terminar este caminho; apenas prossigo a marcha.

Passo por uma mulher que atira pedras ao mar, pedras grandes, como se se libertasse de pesos interiores (uma baixa autoestima, um namorado que não a ama, um pai que a abandonou). Passo por uma praia de proscritos, onde um casal jovem brinca junto à água, ela nos limites da obesidade mórbida, ele mais baixo e mais fino do que ela, ambos risonhos no areal deserto, como se um deles (ou até os dois) achasse que não existe outro local onde o seu amor se possa despir de roupas, a não ser esta praia meio suja e decadente, longe dos impiedosos olhares alheios. Passo por outra mulher sentada nas rochas, virada para o mar, a falar ao telefone (e quando regressar ela continuará lá, estática, ainda a falar, tem vida a relatar aos outros).

Atravesso a ponte metálica por cima da ribeira (ou esgoto antigo, ou uma coisa qualquer que tem água), quando um comboio a cruza. As placas da passadeira debaixo dos meus pés parecem querer soltar-se. O meu corpo trepida numa instabilidade que perdura durante vários segundos. Recupero o equilíbrio e passo pela estação do comboio, porta de chegada a um punhado de edifícios abandonados. Após novo túnel, um paredão à beira-rio-mar. No azul ao meu lado navega um porta-contentores. Parece-me atracado, mas quando volto a olhá-lo já se afastou de mim; avançou mais rápido, apesar da sensação de eu estar a andar e ele estar parado. O navio navega. E a mulher à minha frente caminha. Na estação estávamos quase lado a lado, mas após parar para tirar uma fotografia nunca mais me consegui aproximar dela. Contudo, mantém-se à vista, como que a incitar-me a continuar a marcha, ao contrário das pessoas a passarem em sentido oposto, que rapidamente se colocam a uma distância irrecuperável. Ponho-me a pensar que nas relações amorosas as duas pessoas têm que andar no mesmo sentido e que, se calhar, nem sequer podem estar em margens separadas (pois e se nunca aparecer a ponte que as reaproxime, essa ponte que pode já ter sido demolida, ou que pode não ter sido ainda construída?). Sim, é preciso ir na mesma direção, com a mesma velocidade, a diminuir ou aumentar o ritmo conforme o outro precise, mas exatamente no mesmo caminho, lado a lado, de mãos dadas.

E de repente chego ao fim do paredão. A mulher que ia à minha frente já se cruzou comigo e iniciou o regresso, distanciando-se rapidamente. Reparo no edifício do Instituto de Socorros a Náufragos. Isto é Caxias. Fica a uns cinco quilómetros da minha casa. É o meu socorro. Volto-me para trás. O farol vermelho e branco enquadra agora Algés, bem lá ao fundo. A semana foi cheia, sinto-me cansado, mas há um caminho a percorrer. Faço-o a relembrar o caminho já feito, o que metia florestas pelo meio, a relembrar que às vezes é preciso andar em frente mesmo com sacrifício do corpo. Faço-o a pensar que não percorri um caminho de esperança, força, coragem, confiança, fé… Trilhei um caminho de resiliência. Dia após dia, manhã após manhã, noite após noite, tratamento após tratamento, exame após exame, aguentar, resistir, andar em frente, consciente de que o bem-estar e a felicidade e a própria vida dependem e estão em cada uma dessas passadas, que é preciso fazer os caminhos à nossa frente, despreocupados com o destino (que nunca sabemos bem o que é ou onde fica), limitados ao mero andar enquanto aprendemos a olhar para os lados, para ver mulheres a atirar pedras ao rio e raparigas a brincar junto ao mar, navios a sair para o mundo e botes parados no areal, edifícios abandonados e paredes que renascem grafitadas.

Ao lado, no imenso azul, avisto outro cargueiro. Este navega, num movimento claro, no sentido inverso ao meu, a afastar-se de mim para ir explorar outros mares. E eu só tenho de prosseguir o meu caminho (duas horas e meia no total), para voltar a casa, para voltar ao sítio onde poderei descansar de uma semana intensa. Se estivermos concentrados nas nossas passadas, as estações vão surgir sem darmos conta delas. De repente, chegamos ao sítio. E ficamos lá a descansar, serenos, contentes pelo cansaço, satisfeitos pelo que vimos e fizemos durante o caminho. Prontos para, no dia seguinte, voltarmos à estrada.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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