ESTRADA NACIONAL: a nova estrada

Desde há uns meses que ando a viajar entre sul e norte. Para cima ou para baixo, o destino representa duas faces da mesma moeda: uma família a reconstruir-se. Os rostos que recebo em cada chegada assinalam o meu novo mapa do território, por enquanto inevitavelmente fragmentado. A viagem de carro que assinala o encurtar dos dias em Algés, o encurtar dos dias que passo com a minha filha, não pode ser um rolar tranquilo pela autoestrada. Isto não é um passeio; partir remexe-me as entranhas. Mas preciso de fazê-lo, na ideia de estar a criar uma novo mosaico com pedaços daqui e dali, cuja reunião, mesmo que mais espaçada, possa compensar as ausências. Sim, esta vida uns dias a dois, outros a quatro, poucos a cinco, envolve laivos de angústia. E ainda assim prossigo, pois isto não é uma fuga. É uma nova etapa de vida.

Eis-me ao volante, com sacos de roupa no porta-bagagens, a decidir evitar portagens e seguir pela Estrada Nacional 1, agora entrecortada pelo Itinerário Complementar 2. Até chegar à via antes famosa agora em desuso, que começa em Vila Franca de Xira, o trajeto é lento. Neste solarengo dia de semana, os vila-franquenses inundam as ruas. É feira de outubro, há gente nas bancadas montadas para as esperas ao touro. Escapo-me às cornadas e a velocidade aumenta. Vejo mal as putas à beira da estrada, antes da Espinheira, uma morena, brincos de argolas, sentada de perna traçada, pensativa, depois uma mulata cheiinha, de pé a falar ao telemóvel, costas viradas para a estrada, finalmente uma loura, vestido vermelho ajustado às formas arredondadas, postada em cima de um pilar como se fosse uma estátua romana. Nas clareiras onde não está ninguém, veem-se velhos sofás abandonados.

Os camiões que circulam em sentido contrário rasam-me a alta velocidade. Aqui não existem separadores. Pertencemos todos à mesma estrada, jogamos o nosso destino uns com os outros. Já parei para atestar o depósito, agora estaciono na Venda das Raparigas. No café, três homens falam de futebol. Ninguém atrás do balcão. Um senhor de cabelos brancos diz que o William Carvalho enche o campo e lhe recorda o Oliveira, “ele também metia a bola a 30 ou 40 metros com a mesma facilidade com que fazia um passo curto”. O senhor põe-se atrás do balcão para tirar o café que peço. Tem cara de proprietário e eu prefiro perguntar aos que ficam na mesa a razão do nome da localidade. Um rapaz, provavelmente o cozinheiro, sentado a escrever a ementa, levanta a cabeça e ajuda o outro homem, baixo e de óculos, provavelmente o empregado de mesa, a dar-me a explicação. Que antes havia por ali uma venda, nome que se dava às lojas, e que o dono tinha duas filhas (ou seriam três? não têm a certeza) que lá trabalhavam. E era por isso que as pessoas diziam ir “à venda das raparigas”.

Histórias. A nossa vida – e a nossa terra – composta de histórias. Pergunto-me qual será a origem de Cheganças, Ataíja de Cima, Faniqueira, Malaposta. Ficarão para outras viagens por este país interior que muitos diriam parado no tempo, mas que eu digo que está vivo. Aqui, à exceção dos stands de automóveis a céu aberto que iniciam e acabam muitas localidades, não existe a monotonia das autoestradas, sempre de paisagens desinteressantes, com as áreas de restauração e postos gasolineiros asséticos, onde não se conversa, não se pergunta, não se aprende, não se escuta. Eu gosto da palavra “local” e sintonizo a rádio Benedita na maior parte do percurso. É nome que me remete para a Maria, muitas vezes confundida com Maria Benedita, quando ela é Benedito, de apelido. Se estivesse com ela talvez ficássemos mais tempo a apreciar o “presépio” que é a Alenquer disposta ao longo duma encosta, ou parássemos no mosteiro da Batalha, numa banca que anuncia “há melão”, na Coimbra com o Mondego aos pés, ou abrandássemos na bonita ponte sobre o Vouga. E teríamos comido talvez uma sopa da pedra, talvez um arroz de tomate com panados, talvez uma sandes de leitão. Eu tasquinho os pães que trouxe de casa, antes de voltar a parar, já a norte, numa terra chamada Branca, para beber um café e comer um caramujo.

À beira da estrada, regressam as prostitutas, como se os homens só precisassem de se aliviar no princípio ou fim dos percursos. E pelo meio? Há danceterias e discotecas, restaurantes e snacks-bar, fábricas e comércios, acelerações e travagens, filas indianas e ultrapassagens. Há a viagem. Como a dos peregrinos rumo a Fátima, vestidos de colete amarelo, que se fazem à estrada isolados, aos pares e, numa ocasião, num grupo enorme que atravessa a estrada com destemor, tal qual o fazem as manadas de vacas nos Açores, os carros que travem a fundo e esperem, ali vai gente protegida e abençoada pela Nossa Senhora, nada de mal lhes pode acontecer. Habituei-me aos camiões rasantes; mas continua a fazer-me confusão passar com alguma velocidade tão perto desta gente que caminha na berma da estrada.

Ao aproximar-me do destino, o adensamento fabril e urbano atinge o cúmulo numa estrada estreita, com casas dum lado e do outro, propícia ao para-arranca. Uma camioneta expurga uma fumarola negra pelo tubo de escape. Escapo-me ao horizonte negro e entro em Gaia. Passa por aqui o meu futuro. Vive aqui a mulher por quem me apaixonei. Está aqui parte do meu novo núcleo afetivo. A outra parte chama-se Maria. Sinto a ausência dela. Sinto a distância que nos separa. E hei de percorrer esta estrada nacional as vezes que puder e for preciso, até decorar todas as curvas, até saber a origem do nome de todas as localidades, até provar todas as bifanas e sandes de leitão e arrozes de tomate, até reconhecer e saudar todas as prostitutas da estrada, para que esta distância se desfaça ou se torne num mero detalhe.

Quando termina a viagem de carro, seja em sentido sul ou norte, começa sempre outra viagem. A de dar novo passo na reconstrução de uma família.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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