20.000 Days on Earth (filme)

«Todos os nossos dias estão contados. Não nos podemos dar ao luxo de sermos ociosos. Agir sobre uma ideia má, é melhor do que não fazer nada. Até porque o valor de uma ideia só se torna visível no momento em que a colocamos em prática. Às vezes, essa ideia pode ser a coisa mais pequena do mundo. Uma chamazinha que nós, acocorados, protegemos com as mãos em concha, enquanto rezamos para que a tempestade a pairar por cima dela não a extinga. Se conseguirmos agarrar essa chama, podemos construir muitas coisas em seu redor; coisas grandiosas, coisas poderosas, coisas que podem mudar o mundo. E tudo isso sustentado na mais pequenina das ideias.»
20.000 Days on Earth (2014), realizado por Iain Forsyth e Jane Pollard

Não costumo comentar os filmes que vejo ou os livros que leio e aqui publico. Julgo sempre que a associação da citação com a imagem – da capa, do poster, da cena –, fazem melhor o trabalho de chamar a atenção do que qualquer adjetivo ou estrelinha que eu lhes possa juntar. A culpa de agora estragar esse estado puro do objeto deve-se ao documentário 20.000 Days on Earth. Não sei se é por causa do filme em si (muito bem escrito, programado, encenado, filmado, montado) ou pela figura do Nick Cave. É certamente pelas coisas que ele escreve e recita. É certamente pelas músicas que nos entram pela alma, como a versão ao vivo de Jubilee Street. É certamente por ver a imagem do Nick Cave a ver o Scarface com um filho de cada lado.

Um desses filhos, entretanto, morreu. Se este docudrama, que abre portas para a intimidade do Nick Cave (desde o seu processo criativo, às suas memórias ocultas e seus medos revelados) tivesse sido feito depois desse terrível acontecimento, poderiam os depoimentos, as respostas, os textos serem os mesmos? Poderia o Nick Cave responder à pergunta “O que o assusta mais?” com um “Perder a memória”?

No fundo, quando fazemos algo, estamos sempre a viver o presente, mesmo que esse presente esteja ancorado no passado. Quando pedem ao Nick Cave para falar sobre canções antigas, ele defende que cada canção representa o momento em que foi escrita. Se a letra for sobre certa mulher, a letra refere-se ao que essa mulher era e representou no momento da escrita (ele chega a dizer que não lhe interessam as transformações posteriores que a mulher tenha tido; a canção não é sobre a pessoa do presente, mas sim sobre a pessoa do passado). Talvez se passe o mesmo com a literatura.

Quando se escreve um romance, cada página é o somatório do que somos. E nós somos o que vivemos (e o que não vivemos), o que lemos e vimos e ouvimos (e que que não lemos, não vimos e não ouvimos), o que experimentámos (e o que renunciámos), somos até as pessoas que conhecemos (e as que nos passaram ao lado). Pedir a alguém para falar sobre um livro que se escreveu anos atrás, às vezes num contexto de vida – física, geográfica, laboral, familiar, social – completamente diferente daquele em que se vive o presente, é um convite a que resgatemos a memória do que éramos nessa altura. E esse confronto com o passado pode revestir-se de nostalgia, de raiva, de prazer, de angústia. Essa viagem pode ser confortável ou agreste. Conseguirá o Nick Cave, após a morte do filho, voltar a ver-se neste 20.000 Days on Earth? E se o conseguir, será que se irá rever na imagem que representou de si mesmo? Será que se irá rever no que disse?

Somos o presente em tudo o que fazemos. Mesmo que estejamos continuamente a dar piscadelas de olho ao passado, para vislumbrar ou recordar o que nos aconteceu antes, na tentativa mais ou menos desesperada de percebermos o que somos agora.

20-000-days-on-earth

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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Uma resposta a 20.000 Days on Earth (filme)

  1. anabela gaspar frança pais diz:

    Gostei muito e concordo em absoluto com o que referes sobre o escritor.

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