ESTRADA NACIONAL: filmes em câmara lenta

O dia solarengo convida a viajar de vidro aberto. Quais são os cheiros da estrada nacional? No norte abundam os fumos de fábrica, os gases de escape; é um odor industrial. Já a passar o centro, predomina o cheiro forte a terra estrumada; é um odor campestre. No início e no fim, a mescla dos cheiros citadinos de Gaia e Lisboa, extremos de uma viagem que, aos poucos, revela o país pelo meio.

Paro em Avelãs de Caminho, terra com 500 anos de foral. No café, mal alumiado, três homens falam do estado de Portugal. Não se responde ao bom dia do forasteiro. Compreendo. Estão embrenhados na conversa deste país que tem a maior quantidade de ouro da Europa (mas no qual o Governo não pode mexer), deste país onde os impostos são uma roubalheira (se ganhares o euromilhões, vinte por cento vai para o Estado, diz a empregada ao balcão), deste país onde se esbanjaram subsídios (começou no tempo do Mário Soares, ó caralho, avança um dos homens, dinheiro emprestado aos empresários, para fazer vacarias, e viste alguma?, nada, depois fecharam as empresas, falidas, mas não devolveram o empréstimo, para onde é que o dinheiro foi? para o meu bolso não veio nada, contribui novamente a rapariga ao balcão).

Pago o café com os trocos no bolso das calças e dirijo-me à casa de banho, ao fundo da sala nas traseiras, onde desponta o pano verdinho da mesa de snooker. Imagino o cenário cheio de fumo de tabaco, homens a darem tacadas fortes para impressionar as mulheres sentadas nas cadeiras, ou então elas a pegarem nos tacos para meterem as bolas no buraco. Lá fora, a olhar para a igreja paroquial, continuo enredado nos meus filmes, nas minhas ficções, como as que surgem ao ouvir a rádio Granada, onde roda o anúncio do vidente de Vendas Novas que resolve todo o tipo de problemas e que bem podia ter ajudado o rapaz, ou homem, desesperado da canção do José Reza, a choramingar em refrão “Tirem-me deste filme / Já não gosto do guião / Tinha um final feliz / Mas agora és atriz / Noutras cenas de paixão”.

Come-se de pé na “Ti Cristina” do Alto da Serra, a descansar as nádegas doridas do muito tempo sentado. O balcão de alumínio é um corrupio de bifanas, pratos de sopa, copos de vinho tinto, cafés. Peço uma bifana e um Sumol. O pão massudo ajuda a encher, mas a carne é tenra, sem nervos, cozinhada numa frigideira enorme, com um anel de queimado acima do nível do molho acastanhado e fervilhante, onde volta e meia se despejam colheradas de banha.

Quando fizer a viagem com frio, comerei a sopa. Agora, saciado de fomes, aprecio um dos troços mais bonitos do trajeto. Na zona da Espinheira, a estrada beneficia das réstias da serra de Montejunto: bermas ladeadas de árvores (reconheço a maior parte como sendo eucaliptos, mas gostava de saber identificar as restantes, serão sobreiros? freixos? pinheiros-manso?), cuja fileira se interrompe para várias clareiras de terra batida, símbolos do passado de grande tráfego na estrada nacional. O troço tornou-se uma via fantasma, quase sem camiões, praticamente sem carros, povoado por duas prostitutas, primeiro uma alourada, de vestido castanho, a falar com um ciclista equipado a preceito (parecem entretidos com cinco dedos de conversa: sobre o estado do país? a meteorologia? os velhos tempos?), depois uma morena, saia curta, uma hipótese de rosto bonito que a curva apertada não permite confirmar.

Pergunto-me se ainda estarei a viajar demasiado depressa? Será que ainda preciso de abrandar mais o ritmo, nesta estrada nacional que é uma espécie de portal para aquilo que também faz parte do meu país?

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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