Um voto de força

A mesma cena que já me acontecera, numa eleição passada, junto à mesa de voto.
– A menina não pode ir consigo – diz um delegado, no seu fato cinzento de fazenda, refastelado na cadeira, meio de esguelha para a urna, como se estivesse desinteressado do ato eleitoral.
E eu, que costumo ser calmo, desta vez não sou. E eu, que costumo andar calmo, desta vez solto a irritação. Não, desta vez não vou acabar numa história com 77 palavras.
– Já me fizeram isso uma vez, mas desta vez ela vem comigo.
– Não pode ir. É o que está na lei.
– Que seja, ela vem comigo. Não tenho com quem a deixar.
– Pode deixá-la aqui connosco.
A mesa e a cabine de voto distanciadas por um metro. Mas eu quero lá saber.
– Não o conheço de lado nenhum para deixar a minha filha consigo.
– Não me diga que acha que havia mal em ela ficar aqui?
– E faz algum mal ela vir comigo?
– Eh… Não… Mas é a lei.
– Não me importa. Ela vem comigo. Tem aí o meu número de eleitor; se quiser faça queixa.
A Maria vai comigo. Ao depositar o voto na urna, digo:
– Vem um cidadão votar, dar um exemplo cívico à filha, e vocês, em vez de aplaudirem, criticam. Tenham juízo.

Sei que a Maria está desconfortável com o episódio. À saída, falo com ela daquilo que nunca fui, mas que às vezes tinha de ter sido. Sim, às vezes temos de lutar, de confrontar, de defender o que achamos justo. A conversa serena-nos. Vive-se o resto da tarde e noite numa acalmia de dever cumprido. Ao jantar, durante a fruta, ela pede para experimentar palavras cruzadas. Acerta muitas definições. Alternamos as cruzadas com sopa de palavras. Lemos os signos e tentamos descortinar lições de vida no meio das previsões corriqueiras. Escolhemos as bolsas para os nossos guardanapos de pano, resgatadas aos tempos em que eu era criança. Ao deitar, depois das duas histórias, voltamos a falar sobre força, destrinçando força física de força interior.
– Tu és muito forte aí dentro – digo-lhe. – Já o demonstraste. Só tens de acreditar em ti. É uma força tua. Mas se calhar também tens um bocadinho da força da tua bisavó Nana, a pessoa mais forte que eu já conheci.
Recordamos essa força de uma mãe que perdeu os seus três filhos (digo à Maria que não existe pior coisa na vida) e encontra, sabe-se lá onde, a capacidade para sorrir de vez em quando.
– Tu também tiveste força, não foi, Pai?
– Talvez tenha tido um bocadinho, durante o cancro. Mas nada comparável à avó Nana. E até tu já demonstraste que és mais forte do que o pai.

Arrumo a cozinha antes de ir para a sala, ligar o televisor, conhecer os resultados eleitorais. Em cima da mesa, à espera do jantar, ao lado das bolsas de guardanapos herdadas da avó Nana, está mais um jornal com palavras cruzadas por iniciar.

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Sobre paulommorais

Escrevo romances, textos, fragmentos. Antes e depois da escrita, leio. Gasto muitas noites com filmes. Nos entretanto, divago sobre novas personagens com histórias por contar.
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2 respostas a Um voto de força

  1. Que bonito! Gostei muito, e um beijo à avó Nana por continuar a sorrir!

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