Ganso assustador

Após um jantar esquecível (com direito a arroz cru de pato), passeio de mão dada com a Isabel no Parque das Termas, em Vizela. Faz frio. Não se avista vivalma, mas ouvem-se vozes saídas da escuridão. Um lago com neblina transporta-nos para um cenário saído de um conto fantástico. Ela sabe que eu fujo dos filmes de terror. Ela sabe que eu não leio Stephen King.
– Vou-te contar uma história assustadora… – diz ela, no seu tom provocador, enquanto me aperta ainda mais a mão.
Nesse mesmo instante, o grasnar de um ganso ecoa pelo parque. Dou um pulo. Estremeço. Até posso não ter medo da morte. Mas não me metam sustos, que ainda morro por causa deles.

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Chimamanda Ngozi Adichie em «Meio sol amarelo»

«Agora, porém, sentia-se abandonado. A sua admiração assentara no facto de ela ser inatingível, era uma adoração à distância, mas agora que provara o sabor a vinho na língua dela, que a abraçara com tanta força que também ele ficara a cheirar a coco, sentia um estranho sentimento de perda. Perdera a sua fantasia.»

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Dia das minhas mulheres (e das outras)

Dizem que fazem falta mulheres nos lugares de decisão para que possamos ter um mundo melhor. Sim, faltam. Mas só se continuarem a ser mulheres. Se quiserem ser como os homens, ou precisarem dessa semelhança para lá chegarem, de que servirá? Sim, lutar pela igualdade em muitas matérias. Mas, por favor, continuem a ser diferentes dos homens. Não foram mulheres que declararam guerras. Não foram mulheres que criaram campos de concentração. Não foram mulheres que se tornaram assassinas em série. Não foram mulheres que violaram em grupo. Não foram mulheres que aterraram, perseguiram, bateram, assassinaram os companheiros.

Certo, às vezes, as mulheres também matam. E como a sociedade – dos homens mas também muito das mulheres – é célere a condenar as culpadas! As mulheres, no crime, no deslize, no comportamento, nunca têm atenuantes. Um homem que trai a mulher? Ora, então se ele é homem… Um homem que bate na mulher? Pois, já se sabe como eles são… Um homem que abandona os filhos? Oh, via-se que ele não era feito para aquilo… Mas quando é uma mulher? Então, chovem juízos, humilhações, injúrias. Chovem pedras. Até fazer sangue. Até matar. Até suicidar. E eu pergunto: querem mesmo ser como os homens?
Precisamos de mulheres que sejam mulheres. Porque ser mulher não é ser frágil. É, em grande parte, ter a capacidade de propagar aquilo onde os homens tanto falham: amor, dedicação, ternura. Talvez até tolerância, quando não se revelam as mais intolerantes perante as outras mulheres que falham ou resvalam do padrão.

Eu sou um produto matriarcal. Na minha família, as mulheres foram e são mais e melhores modelos do que os homens, embora também haja um ou outro caso masculino que caiba na gaveta das referências. E é por isso que, neste dia internacional da mulher, eu me sinto um privilegiado por ter sido criado por uma avó extraordinária, por ter conhecido mais uma ou outra mulher de exceção, e por a minha família, a família que eu ando a ajudar a construir, ser composta por uma mulher e três meninas. Estar rodeado de mulheres faz de mim um homem melhor. E, acredito, o mesmo poderia acontecer com o mundo.

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Bret Easton Ellis em «Lunar park»

«Jayne estava magra e não me dirigiu a palavra, o que fez recordar os tempos em que éramos tão chegados que conseguíamos completar as frases um do outro. Quis dizer-lhe que ainda a amava, mas não era isso que ela queria ouvir. (…) Na parede havia uma fotografia aérea emoldurada. Enquanto tentava adivinhar se era da Europa, perguntei a mim mesmo porque é que eu e a Jayne estamos a tentar a solução mais fácil? Porém, já estava tudo acabado. Assinámos os papéis.»

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Alexandre Pinheiro Torres em «Espingardas e música clássica»

«Vossemecê sabe muito de Camilo.»
«Minha senhora, todos nós, os de poucas letras, só lemos até hoje o catecismo e o Amor de Perdição
«E vossemecê gosta do livro?»
«Só leio quando preciso de chorar.»

[O livro que encontrei na biblioteca municipal de Algés tem o bónus de uma dedicatória a Eduardo Prado Coelho]

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Adolfo Bioy Casares em «A invenção de Morel»

«Talvez toda a minha higiene de nada esperar seja um pouco ridícula. Nada esperar da vida, para nada arriscar; dar-me por morto para não morrer. De súbito tudo isso me pareceu uma letargia imensa, inquietíssima; quero pôr-lhe fim.»

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Um voto de força

A mesma cena que já me acontecera, numa eleição passada, junto à mesa de voto.
– A menina não pode ir consigo – diz um delegado, no seu fato cinzento de fazenda, refastelado na cadeira, meio de esguelha para a urna, como se estivesse desinteressado do ato eleitoral.
E eu, que costumo ser calmo, desta vez não sou. E eu, que costumo andar calmo, desta vez solto a irritação. Não, desta vez não vou acabar numa história com 77 palavras.
– Já me fizeram isso uma vez, mas desta vez ela vem comigo.
– Não pode ir. É o que está na lei.
– Que seja, ela vem comigo. Não tenho com quem a deixar.
– Pode deixá-la aqui connosco.
A mesa e a cabine de voto distanciadas por um metro. Mas eu quero lá saber.
– Não o conheço de lado nenhum para deixar a minha filha consigo.
– Não me diga que acha que havia mal em ela ficar aqui?
– E faz algum mal ela vir comigo?
– Eh… Não… Mas é a lei.
– Não me importa. Ela vem comigo. Tem aí o meu número de eleitor; se quiser faça queixa.
A Maria vai comigo. Ao depositar o voto na urna, digo:
– Vem um cidadão votar, dar um exemplo cívico à filha, e vocês, em vez de aplaudirem, criticam. Tenham juízo.

Sei que a Maria está desconfortável com o episódio. À saída, falo com ela daquilo que nunca fui, mas que às vezes tinha de ter sido. Sim, às vezes temos de lutar, de confrontar, de defender o que achamos justo. A conversa serena-nos. Vive-se o resto da tarde e noite numa acalmia de dever cumprido. Ao jantar, durante a fruta, ela pede para experimentar palavras cruzadas. Acerta muitas definições. Alternamos as cruzadas com sopa de palavras. Lemos os signos e tentamos descortinar lições de vida no meio das previsões corriqueiras. Escolhemos as bolsas para os nossos guardanapos de pano, resgatadas aos tempos em que eu era criança. Ao deitar, depois das duas histórias, voltamos a falar sobre força, destrinçando força física de força interior.
– Tu és muito forte aí dentro – digo-lhe. – Já o demonstraste. Só tens de acreditar em ti. É uma força tua. Mas se calhar também tens um bocadinho da força da tua bisavó Nana, a pessoa mais forte que eu já conheci.
Recordamos essa força de uma mãe que perdeu os seus três filhos (digo à Maria que não existe pior coisa na vida) e encontra, sabe-se lá onde, a capacidade para sorrir de vez em quando.
– Tu também tiveste força, não foi, Pai?
– Talvez tenha tido um bocadinho, durante o cancro. Mas nada comparável à avó Nana. E até tu já demonstraste que és mais forte do que o pai.

Arrumo a cozinha antes de ir para a sala, ligar o televisor, conhecer os resultados eleitorais. Em cima da mesa, à espera do jantar, ao lado das bolsas de guardanapos herdadas da avó Nana, está mais um jornal com palavras cruzadas por iniciar.

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